sábado, 21 de janeiro de 2017

O Peregrino do Mar

Dizem que o texto abaixo foi encontrado muitos séculos atrás numa praia distante, dentro de uma garrafa. O manuscrito original foi perdido há muito tempo, e tudo que resta é essa transcrição fiel copiada no Livro de Maravilhas do Reino:

"Rezava a antiga lenda que numa ilha muito distante era possível sentir a presença de Deus a todo momento. Era conhecida como Ilha Prometida. Muitos sonhavam visitá-la, mas ninguém conhecia o caminho.

Eu ainda era criança quando ouvi essa lenda pela primeira vez, e me senti imediatamente encantado por ela. Como desejava conhecer aquela ilha! Conforme eu crescia, o desejo aumentava, e meu coração estava repleto dele. Assim aconteceu com muitas pessoas de minha geração, que sucumbiram ao encanto da lenda e sonhavam dia e noite com a busca da Ilha Prometida.

Certo dia, não se sabe bem por que, o Rei decidiu organizar uma grande expedição naval para encontrar a Ilha. Logo surgiram centenas de voluntários, e o monarca ordenou a construção de cinco grandes navios, capazes de enfrentar ondas violentas e tempestades furiosas. As árvores mais fortes do Reino foram abatidas e os melhores carpinteiros foram contratados. Velas e cordas muito resistentes foram adquiridas.Muitos caixotes e barris de mantimentos foram encomendados. Durante um ano o Reino inteiro se agitou.

Finalmente, os cinco navios estavam prontos e ancorados na Grande Baía. Todos os peregrinos voluntários vieram até a Corte e houve uma grande e solene festividade de despedida na Praça Maior, presidida pelo próprio Rei. Nessa ocasião, muitos aventureiros fizeram o juramento solene de não voltar ao lar enquanto não tivessem encontrado a Ilha Prometida. Depois da cerimônia, todos os viajantes embarcaram sob a ovação popular.

Meu coração batia forte quando pus os pés sobre o convés do Pensamento. Levantadas as âncoras, as velas foram sopradas por um vento impetuoso e todos os passageiros entoavam cânticos de júbilo pela viagem que começava. As nuvens sorriam alegremente para nós.

As primeiras semanas de viagem transcorreram em grande alegria, e todos esperavam que logo chegaríamos à Ilha Prometida, onde viveríamos continuamente na presença de Deus. Todavia, conforme se passavam os meses, muitos viajantes se tornaram tristes e entediados, e sentiam falta da terra firme. O Almirante reuniu seus capitães e decidiram que um dos navios retornaria para casa, levando todos aqueles que desejassem voltar. E assim, muitos iniciaram a viagem de volta, enquanto quatro navios prosseguiam.

Mais alguns meses de navegação haviam transcorrido quando uma violentíssima tempestade se abateu sobre a esquadra. A tormenta durou vários dias e, finalmente, um dos navios naufragou. Alguns homens morreram, mas conseguimos resgatar a maioria. E assim sobraram apenas três navios. Muitos haviam ficado assustados com a tempestade, e passaram a temer por suas vidas; não queriam continuar. E assim, o Almirante ordenou o retorno de mais uma embarcação, onde puderam voltar aqueles que assim o quisessem.

Sobraram apenas dois navios, e prosseguiram juntos por muitos meses ainda, até que houve uma desesperadora calmaria. Durante várias semanas os navios mal se moviam, e o ar parecia morto. Muitos peregrinos foram tomados pelo desânimo. Assim que se iniciou um forte vento para Leste, desejaram voltar para casa, e o Almirante determinou que uma embarcação os levasse.

No fim, restou apenas um navio, com escassos tripulantes. Navegamos ainda durante muitos e muitos meses, enfrentando calmarias e tempestades. Finalmente, os mantimentos começaram a se esgotar, e o Almirante ordenou um rígido racionamento. Os peregrinos aceitaram bravamente essa privação, até que o Almirante julgou que não seria mais prudente prosseguir a viagem, determinando o retorno. Todos estavam tristes com essa decisão, principalmente o próprio Almirante.

Foi então que decidi que eu prosseguiria sozinho. Até o fim. Conversei com o Almirante, e ele me disse que seria uma atitude imprudente. Me alertou que se não encontrasse a Ilha Prometida seria impossível retornar ao Reino; a morte seria certa. Insisti mesmo assim. Finalmente ele cedeu, e um batel me foi cedido, com uma generosa porção de mantimentos, num grande baú. Agradeci aos companheiros por essa última gentileza e me fiz ao mar, enquanto eles acenavam tristemente. Uma grande solidão me tomou quando o Pensamento finalmente desapareceu no horizonte, rumo ao Leste. Para mim, só restava o Desconhecido Oeste.

Um vento firme soprava sempre e sempre minhas velas, e durante muitas horas por dia eu também remava, esperançoso. Só comia uma vez por dia, e tão pouco que me sentia constantemente faminto. Fui ficando cada vez mais fraco. Os remos se tornavam cada vez mais pesados em minhas mãos. Apenas o desejo profundo de ver a Ilha Prometida me dava forças para prosseguir. Só me restavam o sucesso ou a morte.

Certa noite, uma forte ventania arrebentou os cabos e levou a vela voando para longe de mim. Ainda me atirei ao mar para tentar recuperá-la a nado, mas não foi possível. Retornei molhado e triste ao batel, enquanto o vento congelava meus ossos. A partir da manhã seguinte encontrei novas forças para remar, e prosseguia bravamente, sob o Sol escaldante do meio-dia e a brisa suave da noite.

A cada dia sobrava um pouco menos de meus mantimentos. O baú estava quase vazio e me restavam umas poucas garrafas d'água. Comia apenas a cada dois dias, porções cada vez menores; bebia uns poucos goles d'água por dia. Finalmente, a comida acabou, e a água logo depois. Ainda assim, prosseguia remando, no limite das minhas forças. Era tudo que me restava.

Ao cabo de alguns dias, nada mais era possível. Mal conseguia permanecer sentado. Passava a maior parte das horas deitado no fundo do barco, dormindo ou contemplando as nuvens ensolaradas ou o céu estrelado. Perdi toda noção do tempo.

Em certa noite enluarada e sem nuvens o mar estava muito agitado. O batel subia e descia nas ondas enfurecidas. Eu me agarrava aos bancos com todas minhas forças, mas uma violenta vaga atirou o barco ao vazio. Na água sombria eu não sabia para qual lado estava o céu ou o fundo do mar. Lutei custosamente para retornar à superfície, e olhei para todos os lados. Quando não consegui avistar o batel em lugar nenhum, copiosas lágrimas brotaram de meus olhos. Estava perdido.

Com as forças que me sobravam, cheio de aflição, tentava permanecer flutuando no mar revolto. Em muitos momentos, coberto pelas ondas, achei que chegara meu fim. Permaneci assim durante algumas horas, até que avistei um pequeno ponto escuro entre as vagas. Tomado por uma vaga esperança, comecei a nadar com muito esforço em sua direção. O movimento do mar às vezes afastava de mim aquele pontinho, mas eu prosseguia firme. Não podia perder minha esperança de uma esperança.

Quando finalmente alcancei aquele pontinho, descobri que era o baú vazio de mantimentos, que flutuava. Me agarrei a ele fervorosamente, derramando lágrimas de alegria e gratidão. Aquele baú vazio valia mais que todos os tesouros do mundo. Mais tarde encontrei um pedaço de corda que flutuava; passei-a por baixo de meus braços e amarrei ao baú.

Não sei quantos dias e noites passei amarrado àquele baú. Logo mergulhei num sono profundo e sem sonhos, que não sei quanto tempo durou.

Acordei sentindo a areia em meu rosto. Estava estirado ao chão. A Lua refletia estranhamente naqueles grãos de areia molhada. Parecia que eu flutuava no céu. Com algum esforço, me desamarrei do baú e me pus de pé, cambaleante. A sede me torturava. Uma sede que ia ao fundo da alma. Abri o baú salvador e tirei uma das garrafas vazias. Saí em busca de água, aos tropeções.

Não muito longe da praia encontrei a Fonte. A água era fresca e viva, como nenhuma outra água desse mundo. Alguns goles foram suficientes para matar minha sede e encher meu coração de alegria. Todos aqueles sofrimentos valeram a pena.

Assim terminaram minhas peregrinações e começaram minhas venturas.

Seriam necessárias muitas outras cartas para descrever todas as maravilhas dessa Ilha Prometida. De nada adiantariam todas essas cartas, na verdade, pois essas maravilhas não se explicam com palavras. O único modo de conhecê-las é enfrentando o mar perigoso e vindo até aqui. Essa mensagem na garrafa é um convite, apenas um convite.

Vem.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Travessia

Confuso, aflito,
Passo incerto,
Caminhava o profeta,
Nas areias do deserto

-Que será de mim, Senhor?
Bradava inquieto;
Respondeu o anjo:
-Seja o que Deus quiser.

-Quando?
-Seja quando Deus quiser.
-Onde?
-Seja onde Deus quiser.
-Como?
-Seja como Deus quiser.

Sereno, esperançoso,
Passo certo,
Seguiu o profeta,
Nas areias do deserto.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Babel


Tijolo, cimento, sangue
Cai a torre
Pedra, madeira, osso
Cai a torre
Ouro, prata, ferro
Cai a torre
Homem, mulher, criança
Cai a torre
Vaidade, luxo, ganância
Cai a torre
Língua, coração, alma
Cai a torre
Rei, sacerdote, escravo
Cai a torre

domingo, 4 de setembro de 2016

Seigneur Chêne - Hymne

Ô, Chêne,
Monseigneur!
Vous êtes pilier de l'univers!
Vastes sont vos branches,
Profondes vos racines!
Votre tronc est terre,
Ciel,
Mer
Et mort
Vos feuilles chantent,
Car vous êtes vent
Vous êtes sol
Pour écureil;
Vous êtes écureil,
Lui-même
Vous êtes lumière sur les feuilles
Et ombre sous les branches
Vos glands sèment des mondes,
Car vous êtes avenir
Vous devenez tout,
Car tout devient vous
La pluie dance pour vos racines
Votre ombre couvre et allume le monde
Vos rameaux sont voile, jour et nuit
Vous êtes soleil d'été,
Lune d'hiver,
Étoile du printemps,
Nuage d'automne
Vous êtes neige qui tombe
Et eau qui ruisselle
Tous les arbres
Sont vons branches ou vos racines
Vous êtes le saint et le pêcheur
Ô, Chêne,
Monseigneur!
Vous êtes pilier de l'univers!

Loose canon

I am the loose canon:
Hammer,
Thunder,
Hurricane

I dash,
I crush,
I crash,
I wreck,
I smash

I bear no chain,
No rope,
No hope,
No shame

I am the loose canon:
Hammer,
Thunder,
Hurricane!

O xeique Tauridis e a queda de Nogar

Tauridis era um jovem xeique da tribo de Murá. Sua herança era pequena, mas sua coragem e audácia eram inigualáveis, e o Criador lhe havia escrito grandes destinos.

Aos 25 anos, Tauridis já era um guerreiro experiente e célebre por seus feitos a serviço do bom califa Ibian. Foi nessa época que ele concebeu o audacioso plano de conquistar o rico reino de Nogar. Todos riram dele, mas o xeique foi até a corte, e o sábio califa concedeu bênção e permissão aos seus projetos, pois conhecia e reconhecia sua bravura e sua astúcia.

Desde então Tauridis pôs-se a organizar sua expedição. Ele vendeu tudo que possuía, exceto seus cavalos e suas armas e fez-se à estrada, acompanhado de seus fiéis servidores. Durante três anos o xeique percorreu o deserto empoeirado, visitando inúmeras aldeias e convocando todos os jovens valentes que desejassem integrar sua expedição, e muitos se entusiasmaram e aceitaram o convite.

Dizem que a essa altura seus planos chegaram aos ouvidos do Marquês de Gaulian, que residia na fronteira oriental do reino de Nogar. Gaulian teria alertado o rei Ruderax, mas o monarca era preguiçoso e arrogante, e não quis acreditar em suas suspeitas, dizendo que ninguém seria tolo para enfrentar o poderio dos nogarin e somente um louco pensaria em conquistar reino tão forte.

Tauridis não era tolo, nem louco, mas tinha fé no Criador. E assim, na época marcada cerca de mil homens se reuniram no oásis de Al Fatach, conforme combinado. Cada guerreiro trazia seu próprio cavalo, e o xeique utilizara toda sua fortuna organizando uma caravana com 200 camelos, que levava mantimentos para a longa campanha.

Durante 12 dias marcharam pelo deserto, até chegar ao Forte de Murrakin, na fronteira de Nogar. O precavido Marquês de Gaulian estava lá, pronto para o ataque, mas sua  guarnição era pequena e não resistiu ao impetuoso assalto do xeique Tauridis. A maioria dos nogarin morreu no ataque, menos um mensageiro que escapou.

Quando o mensageiro chegou à corte, em Tulad, o rei Ruderax percebeu seu erro; convocou suas tropas às pressas e correu em direção ao leste com os poucos soldados que tinha de prontidão.

Ruderax e Tauridis se encontraram na margem oriental do Gulavar. Era meio-dia quando as tropas se chocaram. As forças do xeique eram menos numerosas, mas superavam os nogarin em bravura. Até o fim da tarde a batalha parecia favorável às armas de Nogar, mas repentinamente Ruderax foi cercado e morto. A notícia de sua queda correu entre os nogarin, deixando-os desorientados. O astuto Tauridis não hesitou diante da oportunidade, e sua cavalaria avançou com tal violência que destroçaram o inimigo. Os poucos sobreviventes atravessaram o Gulavar, levando notícias desencontradas, e muitos se afogaram na travessia.

Tauridis se apressou com suas tropas, e em 7 dias chegaram às portas de Tulad, que se encontrava praticamente indefesa, pois a maioria dos exércitos nogarin ainda estava a caminho do leste, enquanto outros, recebendo notícia da queda de Ruderax, se demoravam indecisos pelo caminho.

Após a vitória, Tauridis deixou uma guarnição de 200 homens em Tulad, e partiu com o restante de suas tropas de volta para o leste, cercando as forças nogarin remanescentes e derrotando-as em rápidos ataques, usando de surpresa. Em menos de dois meses a maioria dos exércitos nogarin se rendera e entregara suas armas, e Tauridis assegurou o domínio da porção oriental de Nogar.

Nesse ínterim, o sagaz xeique enviara um mensageiro até o califa comunicando suas vitórias, e o prudente Ibian enviou reforços a Tauridis.

Vendo o grosso das tropas de nogar rendido e desarmado nas terras do leste, Tauridis selecionou 250 de seus melhores homens e avançou para o oeste, onde haviam ficado pouquíssimos soldados após a convocação de Ruderax. A conquista das terras ocidentais foi tranquila, pois em cada castelo, aldeia ou cidade as fracas guarnições se rendiam sem resistência. Assim, em poucos meses o bravo Tauridis realizou uma conquista de muitas vidas.

O xeique Tauridis tratou então de manter suas tropas em movimento pelo reino, garantindo a paz e a obediência. No inverno chegaram cerca de dois mil homens do califado e Tauridis reforçou suas tropas e designou guarnições fixas para as principais fortalezas de Nogar. Na primavera, vendo que a conquista estava bem guardada, Tauridis retornou até o califa, entregando-lhe a posse das terras de Nogar e fazendo juramento de vassalagem. E o honrado Ibian abençoou seu gesto e lhe outorgou o governo dos nogarin, com todos os seus encargos e privilégios.

Tendo assegurado a justa e legítima posse de Nogar junto à sagrada autoridade do califa, Tauridis retornou a Tulad, e no verão convocou todos os nobres nogarin até a corte, onde prestaram juramento de obediência, e o bom xeique lhes garantiu que seus direitos seriam assegurados e que podiam continuar em sua fé sem quaisquer impedimentos.

Mas alguns fidalgos eram homens sem palavra e traíram seu juramento, reunindo-se ao pérfido Duque Pilgir nas montanhas de Ustari, onde permaneceram em rebelião contra o xeique; de todo modo, durante muitos anos os rebeldes permaneceram em silêncio e não incomodavam a paz no reino.

As notícias sobre a riqueza e fertilidade das terras de Nogar circulavam pelo califado, e todos os anos muitas famílias migravam para lá, aumentando a prosperidade do reino e fortalecendo o domínio do xeique.

E assim, Tauridis permaneceu à frente do reino por mais trinta anos, quando morreu, deixando o trono para seu filho Ilbarak, iniciando uma dinastia que durou muitas gerações.

sábado, 3 de setembro de 2016

Miserere

Humanos nascemos
Humanos crescemos
Humanos vivemos
Humanos morremos
Não há maior glória
Não há maior miséria
Pobres de nós!

Mischievous

Don't blame me
Please, don't
I am who I am
I am what I can
I like silly jokes
I love mad words
I play dumb games
I curse for fun
I laugh when I cry
I cry when I laugh
I ask no excuses
I feel no shame
I do what I want
I want what I can't
Don't blame me
Just don't

Tensões

Perdido,
Achado,
Apolíneo indisciplinado,
Dionisíaco de fachada

Ripaille

Ripaillez,
Bagarrez,
Rigolez,
Jouez,
Trichez,
Fuyez,
Rentrez,
Vivez!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Moody

In the dark mood I am
Angry,
Hungry,
Nasty
And Tasty
Bad,
Sad,
Dead
And mad
Hopeless,
Helpless,
Selfless
And reckless
Hurt me if you dare,
Kill me if you care;
Eat my flesh,
Burn my bones.
In the dark mood I am

Barbe blanche

J'aime ma barbe qui blanchit:
Poil à poil,
Jour à jour,
Nuit à nuit.

Hier, enfant,
Demain, vieux,
Après, la mort.
Après, ma mort.

Malgré ce qui suit,
J'aime ma barbe qui blanchit

Printemps passé,
L'été s'enfuit.
L'automne approche,
Mûrissent les fruits.

Et aujourd'hui?
J'aime ma barbe qui blanchit.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Banalizações

Nos tempos que correm, as palavras se gastam muito rapidamente, como tipos de uma obra excessivamente impressa.

Prioridades

Meu único objetivo na vida é ser agradavelmente desagradável a todo o gênero humano. Geralmente consigo fazer a parte de ser desagradável.